- Você vai para a Copa né? – Ele me perguntou com um ar feliz, incrédulo, quase orgulhoso. Eu tentei disfarçar, enrolar, afinal nada estava confirmado, tudo poderia mudar. Mas ele me conhecia bem. Sem a ajuda dele não teria ido para a primeira Copa. Fiquei sabendo que ele passou mau quando soube que eu realmente iria para a Coréia/Japão.
Cresci ouvindo suas histórias da Copa de 1950, sobre o jogo contra a Espanha e a Tourada em Madrid, o silencio do Maracanã, e o mulequinho que ganhou das mãos dele um ingresso para ver a final daquela copa.
Até 2002, assisti quase todos os jogos de Copa do mundo ao lado dele. 2 ficaram de fora: Brasil x Argélia da copa de 1986, quando morreu a esposa do sócio dele e Brasil x Escócia de 1998 quando fui assistir o jogo na casa de um amigo.
Sempre esteve ao meu lado, sempre discutimos, brigamos. Até fui “expulso de casa” naquele Brasil x Noruega de 1998. Mas sempre conversamos e assistimos juntos os jogos.
Em 2002, após cada jogo, fazia questão de ligar para casa. Sabia da felicidade e orgulho do “filho estar na copa com a seleção”. Turquia, China, Costa Rica, Bélgica, Inglaterra, Turquia e Alemanha… tantos telefonemas rápidos, picados, corridos. Mas ligar para casa era sempre sensacional, dava para escutar sua alegria à distancia.
2006 foi diferente. Sem seu apoio e sua força eu não teria conseguido ir. Quando a copa acabou para nós, o que eu mais queria era voltar para casa e encontra-lo. E ainda bem que encontrei ele em casa.
Hoje o Brasil estréia em mais uma Copa do Mundo. A minha oitava. Um pouco diferente. São 12 anos já sem ver um jogo do Brasil em copas por aqui, admito, estou deslocado. Não sei mais “como funciona isso”. Parece babaquice, admito que até certo ponto é. Mas ele faz falta. Esse é o motivo do desconforto. Só isso.
Quando estamos na correria o tempo passa rápido demais, todo mundo fala isso, quanto mais coisas a fazer, mais rápido o tempo passa.
Foram 3 anos muito corridos. Foram 3 anos que aconteceram coisas pracaralho, que mudou muita coisa na minha vida, na minha cabeça.
O sentimento de perda se transformou em saudade, a dor da perda passou. Não consigo acreditar quando alguem fala que sofre a morte de um ente querido à varios e vários anos, isso para mim não existe. Hoje fica um sentimento de boas lembranças de natais, aniversários e almoços nos finais de semana.
Não adianta ficarem bravos com você. Não adianta ficarem putos com você. Não adianta. Você simplesmente não pode fazer muita coisa, apenas aquilo que está ao seu alcance e nada mais.
Se em 2001 para sabermos que o World Trade Center havia sido atingido por um Avião Sequestrado, tivemos que esperar o segundo avião bater diante das cameras de TV, hoje provavelmente saberiamos disso 2 ou 3 minutos após a colisão com uma twittado assim:
Agora esquece o aspecto economico. Coloque o aspecto Social, Civil, Politico. Quanto não vale uma análise global em tempo real? Falar o que as pessoas esperam ouvir? Ouvir todo mundo, sintetizar, coordenar, análisar.
Ou Policial, Padeiro, Lixeiro, Jogador de Futebol, Ladrão de Bancos, Super-Herói, Espião, Jornaleiro, Motorista de Trem, Piloto de Avião, Marinheiro e por ai vai.
Nenhuma criança do mundo respondia que queria ser Advogado, Dentista, Oculista ou Engenheiro. Quando eramos crianças imaginávamos uma vida cheia de aventuras. Todos queriamos acordar de manhã e viver nossas vidas de heróis. Não imaginavamos as burradas que iriamos fazer anos adiante.
Não me venha dizer que sou derrotista. Não me venha dizer que sou pessimista ou que sou um frustrado profissional. Nem de longe, gosto do meu trabalho, gosto do que eu faço. Já tive aventuras sensacionais nos meus empregos. Já conheci o mundo, já me diverti a valer, tenho histórias fantásticas. Mas nada se compara ao sonho infantil de ser astronauta.
Tá, em momento algum na minha infância me imaginei recebendo o contra-cheque da NASA com CARGO: ASTRONAUTA. Admito que em algum sonho infantil devo ter me imaginado preenchendo algum formulário: Profissão: (X) Astronauta.
Nelson Rodrigues disse que o Fla-Flu começou 40 minutos antes do nada. As vezes eu acho que ele estava certo.
Adoro dizer que a vida é irônica, nos prega peças e nos faz nos sentirmos uns idiotas. Mais uma vez ela provou que eu estava certo. Mais uma vez ela me fez respirar fundo, olhar para cima e dizer “tá bom, mais essa para a coleção”.
Eu tinha prometido a mim mesmo que não passaria por aqui hoje, nãoo iria escrever nada, não tinha que escrever, estava tranquilo, acho que tudo que precisava ser escrito, já foi. Não precisava de mais nada. Não tinha motivos. Mas como eu disse, a vida adora nos pregar peças. Agora não seria diferente.
Claro, a tristeza vem à tona. Tudo aquilo passado 2 anos atras, que custou tanto a cicatrizar por completo reaparece. Mas hoje estava mais fácil, mais tranquilo. Mais sereno.
Sereno até demais. Eu sabia que aconteceria hoje, quando vinha para o trabalho, tive a certeza de que no meio do dia receberia a noticia.
Não deu outra.
Irônico. Talvez os dois quisessem muito isso. No mesmo dia, quase no mesmo hoário. Ambos pessoas bacanas, que depois de anos, de alguma forma, podem se reencontrar. E conversar sobre tantos Fla-Flu.
Eu sempre fui intolerante. Preconceituoso. Babaca. De um tempo para cá tenho me tornado mais permeável ao mundo. Tenho aceitado algumas coisas novas e tenho buscado novas experiências. Não, não virei viado, nem penso nisso, nem cogito. Pois bem, tenho escutado musica que não escutava, tenho ido a lugares que não ia e festas que jamais imaginaria ir.
Algumas pessoas já me perguntaram se fiz lavagem cerebral. Posso dizer que levei alguns chutes no saco que me fizeram acordar para o mundo. Tudo está bem mais divertido agora. Com certeza.
Todo mundo fala que o Ano novo do Brasil só começa na primeira segunda-feira da quaresma. O meu começou no primeiro domingo. Por motivos diferentes, claro.
Mas a certeza que o ano novo começou me faz pensar que todas as reflexões dos ultimos dois meses valeram a pena.